Rafael Braga

O efeito do defeito - Gonçalo

Parte 1
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     - Sabes que não podes voltar a casa!
     - Não me digas o que eu não posso fazer! - respondeu gritando. Gonçalo retirou um pequeno saco debaixo de um colchão velho. Dentro continha uma quantia valiosa em dinheiro. - Isto deve chegar.
     - Hei! Esse dinheiro também é meu! - reclamou o seu companheiro.
     - É a única maneira de eu voltar para casa...

     Gonçalo sentou-se no colchão puído que rangeu sobre as molas. Vestia com ele roupas velhas e desfeitas. Vivia com um sem abrigo de nome Fábio que o ajudou a sobreviver nas ruas. Ambos roubavam em troca de alimentos e novas roupas. Dormiam por vezes em casas abandonadas ou em ruas por onde ninguém passava. Os dois estiveram juntos praticamente quatro meses.
     Precisava de voltar a casa.

     - Já passou tempo necessário...
     - Estás maluco dessa cabeça? Tu lembras o que aconteceu há cinco meses? A polícia ainda deve andar em cima de nós! Atropelamos uma menina com um carro roubado!

     Gonçalo permaneceu petrificado.

     - Para não falar que fugiste do Hospital! Ainda me custa acreditar o que te aconteceu... - Fábio agachou-se perto do amigo - Tu tiveste muita sorte, se é que se possa chamar de isso.

     Gonçalo relembrou.

     Numa noite de Agosto, um terrível incêndio havia destruído o seu lar e família. Gonçalo na tentativa de escapar correra pela casa em chamas, atirando-se num acto impensável da janela de um quarto para a rua para se salvar. A queda tinha sido quase fatal. Permanecera inconsciente, deitado na fria estrada, até ter sido resgatado pelos bombeiros e ser levado para o Hospital. Seus pais tinham morrido sem se terem apercebido da catástrofe, contavam os polícias.
     Milagrosamente o seu corpo sarava numa rapidez exponencial. Testes sobre testes, estava a ser submetido a um desumano interesse próprio de médicos cientistas. Eles queriam respostas a todo o custo. Gonçalo vira-se na necessidade de fugir e se esconder.

     - Tive muita sorte mesmo, foi em te ter encontrado. Havemos de ajudar de alguma forma a família da menina... - ressentiu Gonçalo.
     - Se é a tua vontade a de voltar, força. Mas eu não posso. Ainda tenho assuntos pendentes aqui.
     - E eu voltarei para te ajudar. Havemos de terminar esses "assuntos" um dia.

     Fábio sentou-se por fim no chão.

     - Tu conhece-los. São osso duro de roer e não nos vão deixar descançados nunca...
     - Arranjaremos uma forma - aliviou Gonçalo - Tenho que partir já.

     Fábio levantou-se energeticamente, ofereceu a sua mão ainda coberta de ligas manchadas e ajudou Gonçalo a levantar-se também. Os dois cumprimentaram-se à maneira das ruas.

     - Podes levá-lo todo. Não vou precisar desse dinheiro.
     - Fico-te agradecido. Devolver-te-ei.
     - Espero bem que sim - disse Fábio, sorrindo - toma cuidado.
     - Sabes bem que eu não preciso ter cuidado.
     - Mas é sempre educado da minha dizer isto - piscando o olho.

     Gonçalo meteu ao bolso o pequeno saco com o dinheiro e pegou num casaco preto que havia sido roubado a semana passada. Saiu pela porta das traseiras da casa ainda em obras e seguiu a estrada em direcção à estação ferroviária.

     A noite estava calma. Poucos automóveis circulavam nas ruas dos bairros. Gonçalo caminhava decidido e confiante pela ruela abaixo, faltando mais uns quatro quarteirões até à estação.
     - Não é possível! - gritou um indivíduo entre um grupo de seis.
     - Devias estar morto!

     Gonçalo hesitou e parou. Quando se apercebeu do perigo já o grupo lhe barrava a passagem.

     - Meu! Eu enfiei-te duas balas nesse peito! - afirmou o mais corpulento e líder do grupo, dando um passo à frente.
     - Talvez nem tenhas acertado - Gonçalo respondeu audazmente.
     - Estás a tripar comigo? Ah? - alteou a voz aproximando-se mais.
     - Não, MD, estou só a dizer que falhaste os tiros.

     Gonçalo tinha que arranjar um forma de escapar ao bando. Estava em desvantagem desta vez. Ao fundo da ruela um carro de patrulha parou à saída com as luzes ligadas. O grupo não entrou em pânico mas a presença da polícia alertou-os. Dois capangas separam-se do grupo para encostarem-se à vedação de um terreno, folgando um espaço para Gonçalo se esquivar.

     - Estás mesmo a tripar comigo, filho da p...!
     - Merda MD, a bófia! - sussurou um outro.
     - Fodasse! - praguejou - Mas nem a bófia te salva o couro desta vez. Tu e o teu amiguinho ainda me devem os cinco mil! - continuou furioso.

     O medo abraçava o peito de Gonçalo. O carro de patrulha não parecia ter reparado neles, continuando o seu caminho.

     PAAAM! Ouviu-se um disparo tremendo. Tanto Gonçalo como o bando agacharam-se em protecção. O carro de patrulha ligou imediatamente as sirenes sonoras e dirigiu-se para a ruela. O bando dividiu-se, cada um por si, e fugiram em várias direcções. Gonçalo correu velozmente saltando a vedação atravessando as propriedades vizinhas para escapar à polícia. Continou a correr até ter deixado de ouvir as sirenes.

     - Porra! - queixou-se ao golpear-se na segunda rede, esta farpada. O sangue escorreu em segundos pelo braço até à mão, manchando o casaco preto.

     Ao chegar à estação, apressou-se para as casas de banho públicas sem que alguém reparasse. Tirou o casaco e atirou-o para o chão. O corte no ombro era pouco profundo mas as dores eram mais. Lavou o ombro durante alguns minutos até que o sangue estancou. A ferida cicatrizou-se aos olhos de Gonçalo que observava pelo espelho sujo na parede. Por mais vezes que ele assistisse ao mesmo fenómeno, Gonçalo deixava-se impressionar pela incompreensibilidade.
     Por fim enxaguou a manga do casaco, tirando o sangue e o odor.

     O comboio que esperava chegou à estação. Partia em dez minutos. Escolheu um lugar numa carruagem mais vazia de gente. Um operário aproximou-se.
     - Bilhete, por favor?
     - Ahh... - figindo se ter esquecido apalpou os bolsos. Retirou algumas moedas do bolsoe contou - Não tenho bilhete...
     - Da próxima vez tem que o comprar na bilheteira. Destino?
     - Braga - respondeu Gonçalo.
     - São 2,50€. Boa viagem.

O efeito do defeito - Mateus

Parte 3
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     - Não tem sido fácil, sabes? O Mateus é simplesmente uma dádiva. Tenho cumprido a promessa que te fiz. O teu filho tem crescido muito e fez muitas asneiras. Mas o que tu lhe chamavas de dom está a tornar-se cada vez mais um fardo, para ele e para mim... - Célia abriu os olhos e deparou-se com o tecto do seu quarto. Um quarto vazio mas suscito de algumas recordações. Uma pequena moldura segurando uma fotografia de casamento e uma outra mais jovem na parede de frente para a cama - Sinto a tua falta. E ele também...

     Mateus descansava no seu quarto. Ao lado da cama havia uma enorme estante repleta de livros de ensino e variados. Todos eles lidos e etiquetados pessoalmente. No lado oposto havia uma mesa onde estava o portátil ligado, mais uns quantos livros e alguns CD's de música abertos recentemente... Deitou-se na cama e colocou os auriculares nos ouvidos. "Conseguirei memorizar muitas mais músicas? Talvez nem venha a precisar mais deste leitor...", pensou Mateus.

     "Hoje à noite conhecerei a rapariga que há muito tempo terei visto inconsciente. Há precisamente cinco meses e dois dias. Sinto-me nervoso. Tenho medo de a ver e não conseguir assimilar que seja verdadeira e real. Quão será ela diferente dela própria na minha versão imaginária? Terá a mesma personalidade? Não, é impossível." - Mateus pensava questionadamente. Mal prestava atenção às músicas que no entanto a sua mente as absorvia numa fluidez competente. Nenhum pormenor escapava à sua capacidade de reter memórias objectivas.

     "Que efeito terá ela em mim, que na primeira vez que nos cruzamos me deixou assim? Será que sentirei esse efeito novamente, como o sinto nos meus sonhos?" - Mateus continuava a interrogar-se - "Maldita hora em que decidi beber. Mais cedo ou mais tarde o alcóol não limitaria o meu dom, estavas errado pai..."

     Mateus levantou-se da cama.
     Célia já se encontrava na sala a arrumar o seu casaco para sair.

     - Vamos Mateus. É hora de irmos.

     Não disse uma palavra.

     Os dois entraram no carro e colocaram os cintos. Os portões abriram-se automaticamente. Assim que passaram os portões, Mateus olhou de relance para o fundo da rua e viu alguém que caminhava no sentido oposto. Era-lhe famíliar. O andar, o movimento da locumoção, a roupa. Era o seu amigo Gonçalo. O seu amigo de infância que todos pensavam ter desaparecido.

     - Pára o carro, mãe! - gritou brutalmente.

     O carro mal havia parado. Mateus desatou a correr em direcção ao amigo que virou imediatamente por um corte entre vedações. Tentou segui-lo mas ao chegar tarde ao corte o amigo já havia desaparecido. Correu até ao outro lado na chance de o reaver. Nada. Acalmou a respiração e voltou para trás, olhando pelo ombro para os lados. Célia veio ao seu encontro.

     - Que passou? O que viste?
     - Nada mãe, estou a elouquecer!

     Célia observou-o com um olhar reprovador pela expressão dita.

     Os dois voltaram ao carro e Mateus não falou sobre o assunto o resto da viagem. Apenas pensou para si próprio como o sempre fez.

     A viagem não foi longa.
     Estacionaram o automóvel no parque perto da morada onde vivia a rapariga com que imaginava. Era uma casa simples num bairro aparentemente sossegado. Mateus não tirou o cinto. Apenas olhava pela janela para a casa do outro lado da rua, pensativo.

     - Queres falar-me primeiro do que aconteceu há vinte minutos atrás?
     - Mais tarde - respondeu conformado - Pode ser?
     - É justo. Sei que não queres adiar este momento.

     Mateus baixou o olhar até aos joelhos.

     - Sinceramente... Não tenho a certeza.
     - Disseste-me que seria importante para ti se te interligasses com a rapariga. Esta é a altura. E eu estou aqui para te ajudar. E eu falarei a maior parte do tempo.

     Célia sorriu. Os dois saíram do carro em direcção à porta da frente. Mateus olhou para o lado, atencioso para um pequeno jardim de flores brancas.

     - Quem é? - perguntou uma voz masculina após terem batido à porta.
     - Sou a Dr. Célia da Neurologia na cidade e este é o meu filho Mateus. Gostariamos de falar com a sua filha se fosse possível.
     - A minha filha não está!

     Ambos olharam-se. Mateus sentiu um choque breve de memórias. Célia insistiu.

     - Poderia combinar-nos uma hora para que nos podessemos encontrar com ela?
     - Não! - respondeu o homem, grosseiro - E mesmo que ela estivesse em casa também não a deixaria falar consigo. Vão-se embora!

     Célia não insistiu e virou costas.

     - Que rude!

     Mateus nem deu atenção e voltou para trás. Ao chegar perto do automóvel algo o surpreendeu.

     - Querido? - perguntou a mãe.
     - Há quanto tempo não nos temos visto até agora? - perguntou ele para a rapariga que se encontrava escondida do outro lado do carro.
     - Desculpa? - perguntou confusa.

     Célia não se aproximou mas permaneceu cuidadosa.
     - Estou a vê-la, meu querido. É real. Não estás a imaginar...

     Mateus tornou-se eufórico por dentro. Quase incrédulo. Mas seguramente lúcido. Ficaram quietos por uns intantes.

     - Desculpem o meu pai. Ele fica um pouco rabugento quando bebe demais - disse a rapariga olhando para Mateus, quebrando o silêncio.

     A rapariga virou os olhos num acto de reflexão. Voltou-os para Mateus e por fim, reconhecendo-o, aproximou-se dele.

     Ele continuava perplexo e sem fala. Algo na sua cabeça funcionava à velocidade da luz. Até que, instantes depois, cessou. Nada havia para pensar.

     - Mateus? - chamou a jovem numa voz doce.

     Mateus engoliu em seco.

     - Como sabes o meu nome? - perguntou, tentando lembrar-se das vagas memórias.
     - Tu disseste-me o teu nome, lembras? E que irias ajudar-me a encontrar a minha irmã.
     - Desculpa-me, mas não faço mesmo ideia do que aconteceu nem me recordo de absolutamente nada. Eu nem sei o teu nome...
     - Que se passa contigo? - perguntou a jovem num tom leve de fúria - Naquela noite parecias hipnótizado ou algo do gênero. E o que falavas não fazia sentido nenhum. Mas...

     Célia aproximou-se interrogada.

     - O que falava ele? - interrompeu.
     - Mas... Quem é a senhora?
     - Sou a mãe do Mateus. Por favor. O meu filho precisa da tua ajuda para recompôr as peças que lhe faltam dessa noite. É importante sabermos o que ele falou ou fez nessa noite.
     - Tem amnésia o seu filho?
     - Não. É mais... diferente - Célia tentou abrir-se com o "assunto" mas tornaria a conversa mais incompreensiva.

     A rapariga repensou no que iria dizer. A palavra "diferente" tocou-lhe como um sino de metal nos ouvidos. Respirou e continuou calma.

     - Ele simplesmente tornou-se diferente em segundos. Num momento estava a tentar ajudar-me e logo a seguir começou a falar coisas estranhas. Que eu não era real.

     Mateus apercebeu-se. As peças estavam a encaixar-se. Algo fazia sentido para ele.

     - Eu estava aflita e nervosa e não quis perder mais tempo. A minha irmã tinha sido atropelada momentos depois... - a rapariga baixou os olhos, quase em lágrimas.
     - Lamento imenso... - lamentou-se Célia.
     - Ela está a recuperar, felizmente - sorriu leve - O meu nome é Maria.

     Mateus olhou instantaneamente o vazio quando sentiu um outro choque de memórias.

     Nelas, ele encontra-se embriagado pela cidade como todas as noites naquela altura. Há uma rapariga com quem se cruza na escuridão, Maria, desesperada em busca da sua irmã pelas ruas. Ele tenta acompanhar e entender o que ela soluça em palavras.

     - "Calma, respira fundo. Como te chamas?"
     - "Maria... Por favor, ajuda-me a procurar a minha maninha!"
     - "Maria, sou o Mateus. Que se passa?"
     - "A minha irmã fugiu de casa... Porque... os meus pais discutiram... e ele bateu-lhe..."
     - "Meu Deus... Maria, onde achas que ela pode ter ido?"

     É aí que o seu alcoolizado raciocínio entra em colapso.

     - "Tu não és real!" - afirma Mateus.
     - "Ah? O que disseste?"
     - "Tu não és REAL!"
     - "Eu sou real Mateus. O que se passa contigo?"
     - "Tu não existes, o meu pai sempre me disse!"
     - "O teu pai? Desculpa, não posso perder mais tempo..."

     Pelos prédios da avenida ouvem-se o chiar de pneus de um automóvel descontrolado... E a memória termina.

     Mateus completou as suas memórias escondidas. "Não foi esta rapariga, Maria, ou algum efeito que ela tivesse em mim, que me fez despertar os delírios. Foram as lembranças do meu pai..." - reflectiu.

O efeito do defeito - Mateus

Parte 2
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     Doutora Célia prendeu o seu cabelo longo e loiro em rabo de cavalo. De um dos bolsos da bata branca que vestia tirou um bloco de notas que pousou na secretária do seu consultório. Mateus estava sentado na maca de paciente. Olhava o vazio pela janela.

- Descontrai Mateus - acalmou a doutora, estendendo-lhe a mão com dois comprimidos - Estes devem te dar mais quatro dias, infelizmente.

     Mateus tomou-os num acto mecânico.

- Os resultados chegaram hoje. Aparentemente o teu corpo está saudável. Mas o exame neurológico, até para mim, é novamente um milagre. Avassalador - continuou a doutora.

     As palavras nem tocaram a atenção de Mateus.

- Compreendes o que eu te estou a dizer? - perguntou forçando um pouco mais.
- Que eu sou esquisito? Que tenho problemas?

     Alguns segundos de silêncio separaram os dois.

- Não sabemos até que ponto as tuas "capacidades" podem ser boas ou maléficas. No entanto, contrariamente e acima de tudo, de acordo com os meus conhecimentos e estudos, o teu comportamento psicológico não é deveras natural como qualquer outra pessoa. Pesquisei nos mais fundos historiais de pacientes que nem por sombras experienciaram algo como tu.

     Mateus levantou um sobrancelha ironicamente. A sua língua ainda sentia o sabor estranho dos comprimidos.

- O que é certo é que ultimamente te tem atingido os sentimentos. E isso pode agravar-se se te deixares levar pela irrealidade. Podes vir a perder o teu próprio consciente e coerência. A tua âncora novamente.
- Não é algo que eu possa controlar totalmente. Isto vive comigo. Não me larga um minuto - Mateus pausou - E... também não vejo outra forma de viver sem isto. Mas... - pausando mais uma vez - a rapariga que fala comigo, ela é diferente. É como um outro eu, feminino.
- Quero que compreendas o que eu te vou repetir...
- Que ela é imaginação minha e que possui uma personalidade que eu criei inconscientemente. - interrompreu citando palavras antigas - Mas é tão real a sensação e a proximidade...
- Sentes que estás apaixonado por essa entidade, mesmo que por pouco tempo passado com ela.

     Mateus fechou os olhos. Pensou na maior tolice que poderia existir. Como poderia algo ser comparado ao que estava a acontecer consigo. Estar simplesmente apaixonado por alguém que não existia. O seu cérebro funcionava como um turbilhão de informações e imagens. Não o conseguia controlar como antes. Tudo na sua cabeça parecia querer ser resolvido e encontrar um lugar.

- Calma - disse a doutora - Não forces. Deixa processar. Relaxa.
- De onde vem esta música?

     A doutora concentrou-se mas tudo o que ouvia eram pessoas a conversarem no corredor.

- Música? - perguntou.

     Mateus apercebera-se de que estava a ouvir uma melodia familiar, de um momento na sua infância. Era uma música bela e instrumental. Estava a ouvi-la na sua mente apenas. Reflectiu.

- Doutora - perguntou admirado - é possível que as memórias possam reproduzir sons? Assim como as imagens que eu posso imaginar?

     A pergunta afectou de alguma forma o raciocínio da doutora Célia que ponderou nessa possibilidade.

- Estás a perguntar-me se a música que dizes escutar é uma memória? - e então questionou-se a si própria - "Impressionavelmente seria um avanço nas capacidades neurológicas, mas música?"
- Sim! Estou a ouvir uma música que já não ouvia há bastante tempo! - Mateus sorriu e riu.
- Bem, teoricamente seria possível...
- Podemos tentar um teste como aquele que fizemos para a minha memória fotográfica - incentivou.

     Mateus estava obviamente estimulado pela nova experiência, ao invés da passada anterior, que até se rejeitava a tomar a iniciativa de um treino mental. "Só a música poderia seriamente alterar o rumo de decisões de um adulescente de dezanove anos. Mas... até que ponto novas capacidades lhe proporcionarão tamanho bem-estar? E se novas habilidades mentais se somarem ao problemático delírio imaginário?" - pensou a doutora.

     A sala de experiências emanava odores mais intensos que no resto da clínica. Tratava-se de um laboratório específico e especializado apenas para Mateus. Como algo confidêncial.

- Bem - pousando a sua mão no ombro dele resumiu - Da mesma forma que testamos as imagens, faremos o mesmo processo desta vez com músicas. Apartir deste computador ouvirás três músicas. Se tudo correr bem conseguirás memoriza-las facilmente - ambos sorriram cruzando olhares - A seguir testaremos as tuas ondas cerebrais e diagnosticarei se realmente são melodias recriadas apartir da memória. Alguma questão?
- Não - respondeu seguro.

     Mateus ouviu a primeira música. Não fez qualquer tipo de esforço, apenas se concentrou na canção. Passou à seguinte. A meio desta desligou o programa.

- Passa-se algo de errado? - perguntou a doutora levantando-se do outro lado da sala.
- Não. Acho apenas que não serão necessárias três músicas. Enquanto tentava escutar a segunda, eu fui capaz de reproduzir a primeira.
- Admirável - disse a doutora unindo as mãos. Deu um salto até perto dele e ligou-lhe a sonda cerebral na cabeça. O computador abriu automaticamente um programa de imagens gráficas e o cérebro de Mateus preencheu o ecrã. A imagem apresentava multiplas zonas coloridas que especificavam uma determinada tarefa a ser cumprida pela cérebro. E todas elas reluziam e piscavam a toda a hora sem parar.
- Extraordinário - espantou-se a doutora ao examinar as imagens no computador - na realidade o teu sistema reutiliza a informação ligada à memória e transporta-a para o nervo auditivo que por sua vez reproduz o som e convertido por fim no lobo temporal...

     A doutora sentou-se ao seu lado, continuando a examinar as imagens e a ampliar certas zonas. Os dois trocaram impressões e ideias.

- Não sei como és capaz ou porque o teu cérebro é capaz. Não há explicação.
- É tão fácil para mim. É como se tivesse crescido a fazer isto. Quer dizer, descobri esta nova capacidade à cerca de uma hora - ironizou.

     Doutora Célia retraiu-se nas costas da cadeira com o olhar posto no ecrã da máquina. Era um olhar de admiração que escondia um outro sentimento. Era um olhar de surpresa.

- Com estas provas que me tens dado, Mateus, eu deduzo que sejas capaz de muito mais. O cérebro humano poderia ser capaz de tudo se não fosse limitado. Mas o teu, o teu não é limitado. De algum modo, ele é alterado.

     Olhou Mateus nos olhos.

- Possuis uma mente revolucionária no que toca a aprendizagem e memória. Consegues com o mínimo de concentração alcançar lembranças com tanta nitídez que para a maioria só lhe é possível sendo hipnotizada ou drogada.
- E agora sou um gravador de CD's - divertiu-se Mateus rindo.
- Não deverias encontrar tanta diversão num assunto como este - a sua cara tornou-se mais séria e desaprovadora - Teremos que estar mais prevenidos e mais atendos ainda quanto ao teu desenvolvimento. Nunca saberemos o que te pode vir a acontecer. Não estou preparada para este tipo de condições.

     Mateus entendeu a mensagem e arrependeu-se, tomando mais atenção às palavras da doutora.

- Farei o que for necessário para que não percas o teu controlo e para que eu não tenha que vir a dar o meu nome a uma futura nova doença...

     Mateus olhou-a no rosto de sinceridade.

- Obrigado mãe.

O efeito do defeito - Mateus

Parte 1
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     Mateus abriu os olhos acordado por um sonho frequente. Mesmo antes de o despertador ter tocado. Tentou voltar a adormecer. Contudo, a manhã esgueirava por entre os estores e iluminava a parede do quarto como um céu estrelado. Levantou-se e agasalhou-se. Triste, pensou em algo ou alguém que lhe fazia falta...
     A campainha tocou duas vezes.

- Onde estiveste este tempo todo? - perguntou, sonolento, ao espreitar pela porta.
- Bom dia, para ti também.
- Estou mal disposto. Não atendes o telemóvel...
- Não te preocupes, estou aqui - interrompeu ela, entrando pelo hall de entrada até à sala - Pensei em irmos tomar o pequeno-almoço juntos.

     Mateus torceu o nariz e não respondeu de imediato.

- Hum, foi o que eu pensei, já lavaste a cara? - gracejou. Pegou no comando remoto e ligou a televisão. Cruzou as pernas e encostou-se à vontade no sofá.
     Ele apenas sorriu pela metade - Eu já disse que estou mal disposto, não me apetece sair de casa. Podes ao menos dizer-me onde estiveste e porque não me avisaste?
- Tu sabes, melhor do que ninguém - respondeu, misteriosamente - Não sejas desmancha-prazeres. Vai tomar um banho e apressa-te, está bem?
     Mateus virou as costas remoendo.
- E lava bem atrás das orelhas! - gritou, enquanto ele seguia pelo corredor, e sorriu.

     Durante o duche, Mateus tentou recompôr novamente o seu sonho. Uma leve dor de cabeça atordoou-o novamente. A mesma dor que lhe tem surgido nas manhãs que tenta relembrar um dos acontecimentos.

     No sonho, Mateus encontra-se embriagado pela cidade como todas as noites. Há uma rapariga com quem se cruza na escuridão, desesperada em busca de alguém pelas ruas. Ele tenta acompanhar e entender o que a rapariga soluça em palavras. Durante o enredo, o seu ébrio raciocínio entra em colapso quando a rapariga lhe dirige as únicas palavras decifráveis: "Eu sou real Mateus." E tudo termina.

     Apressou o banho e vestiu-se.

- Estou pronto, mas aviso-te que estou mesmo cansado hoje. E triste comntigo... - disse Mateus ao regressar à sala. Ela levantou-se e sorriu passando por ele.

     Saiu do apartamento e desceu a rua até à avenida principal da cidade sem tocar numa palavra. Sentou-se na esplanada de um café e juntou duas cadeiras lado a lado.

- Tive saudades tuas... - sussurou ela, carinhosamente.
- Também tive muitas saudades tuas.

     Os dois beijaram-se e deram as mãos. Os olhos de ambos brilharam enquanto se olhavam. Fazia uma manhã fria e não havia nada mais caloroso naquela praça.

- Bom dia. Vai desejar dois cafés e dois croissants? - perguntou o empregado de mesa em tom de adivinha.
- Sim. Por favor - respondeu Mateus enquanto segurava a mão dela.
     Com um pano dobrado, o empregado limpou a mesa e voltou para o balcão.
- Ele até já sabe o que nós queremos... - disse Mateus ao observar um grupo de pombos aproximarem-se por trás das cadeiras.
- Porque será que ele nem olhou para mim? - perguntou ela.
- Parvoíces! - reflectindo para si próprio, de facto o empregado apenas se havia dirigido a ele, olhos nos olhos, sem prestar atenção à bela rapariga a seu lado. Isso constatou, sem dúvida. Um arrepio correu-lhe o corpo e este tremeu automaticamente. A sua consciência provou uma espécie de pensamentos familiares.
- Há quanto tempo não nos temos visto até esta manhã? - perguntou Mateus pensativo.
- Há quatro dias.
- Porquê quatro dias? Oque aconteceu?

     Surgiu um silêncio. O empregado aproximou-se da mesa com a bandeja equilibrada numa mão.

- Aqui estão os cafés e os bolos. Este bilhete foi deixado para si. Bom apetite.
- Obrigado - agradeceu Mateus ao agarrar o papel.

     "Passaram quatro dias, Mateus. 11h00."

- Que diz o papel? - perguntou a jovem.
- "Passaram quatro dias." Mas que raios...?

     A dor matinal reapareceu mais forte. Mateus segurou a cabeça com as mãos de sofrimento. Nada estava a fazer sentido.

- Quer dizer que necessitas retomar a medicação, Mateus - disse uma mulher.
- Doutora Célia - disse aliviado mas sem levantar a cabeça - Não, chega, não aguento mais!
- É necessário meu querido. É importante. Diz-me, ela está aqui neste momento? - perguntou a doutora puxando e sentando-se na cadeira ao lado.
     Mateus olhou para ambos os lados sem vontade.
- Não...

O empregado de mesa que escutava a conversa pensou o impensável, admirado.

- Querido, precisas tomar a medicação com mais regularidade. Quatro dias é tempo demais para os efeitos se prolongarem... - aconcelhou gentilmente.
- Ela descobriu a minha "âncora", não foi?

     Os seus olhos olharam a mesa em derrota.

- Calma... Havemos de descobrir uma outra solução. Entretanto, tenho boas notícias. Localizamos a rapariga com quem tu fantasias. A verdadeira rapariga. Ela existe mesmo Mateus.

     Levantou docemente a cabeça da mesa. Um sorriso esperançoso rasgou-se no seu rosto.
- Onde a posso encontrar?

Boneco, boneco de neve



Meu pequeno boneco de neve.
Criei-te com as minhas mãos e foste amado pelo meu coração.
Viajaste comigo e como meu amigo fizeste-me rir e brincar.
Derreteste, mas não em lágrimas. Evaporaste, mas não te esqueci.
Restaram os teus braços para me abraçar. Restaram os teus olhos para eu um futuro olhar.

O efeito do defeito

Existe uma rapariga de uma força subrenatural. Muito invulgar. A sua juventude fora dura. Os seus pais discutiam a todos os momentos da vida que por fim terminaram o laço famíliar. O seu namorado havia traído com a sua melhor amiga pouco depois. A sua vida parecia correr mal até algo pior ter acontecido. A sua irmã mais nova havia fugido de casa após o horrível divórcio dos pais. Preocupada e desesperada percorrera toda a cidade em busca da irmã. Ao fundo de uma avenida ocorria um acidente, onde nele estava envolvida a sua pequena. Um carro se despistara violentamente e acabara por parar sobre a menina. A rapariga reagiu inadvertida e revirou o carro rubostamente em ansiedade.

Asas de Papel

O tempo faz de mim um prisioneiro. O meu corpo é um fato laranja identificado pelo meu rosto insultado, tal e qual um código de barras. A vida é a minha cela privada de quatro paredes.
Liberdade, esta, materializada, não me diz respeito. Trata-se de uma mera ideia, um rêles sonho de um humano comum. A minha liberdade está para além do espaço. Está para além de qualquer teoria radical.
A minha liberdade é o meu pensar. É o meu descobrir. É o meu fantasiar, criar e escrever; é o arrancar das minhas entranhas a mais calorosa paixão e disfarçar este código que é o meu rosto pela satisfação que é o meu coração. Dar o meu melhor pela pessoa que está presa comigo.
A minha liberdade é o meu par de asas. É a minha invisível e infalível fuga de prisões que me rodeiam. Das minhas iludidas esperanças, dos meus desejos humanos traídos, da minha inevitável morte e da minha benevolência.
... o meu calcanhar de Aquiles. O meu fraco ponto feito de gelatina. A minha desleixada barreira de papel. A minha irreversível e imensa empatia pelos sentimentos e direitos dos outros, a luta incontestável e infinita pelos factos inequívocos. A inadmissivel repelência de traições, conspirações e desconfianças da minha mente. E é esta maldição, perante os mais abusadores que encontram em mim uma forma de controlar-me, que me retira a liberdade.
Mas um dia morrerei definitivamente e serei condenado para todo o sempre!
Serei sempre asas de papel!
 

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