Rafael Braga

Longe de casa

Era noite e a lua já tinha mergulhado no horizonte.
O orvalho caía tão suavemente que pairava sobre a areia húmida.
Havia uma única luz ao nosso lado, o resto era escuridão.
A água salgada rugia lá do fundo.
Contei estrelas. Procurei nelas desenhos. Apontei. Rimos.
Estavamos no meio do nada mas senti que havia tudo à nossa volta.

O efeito do defeito - Gonçalo

Parte 5
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- Tarde 10 de Janeiro -

     Meio dia havia passado. Gonçalo adormecera depois da noite em branco. As últimas noites não estavam a ser agradáveis e dormir o necessário tornava-se um castigo. Gonçalo sentia a falta das noites em branco na companhia do seu companheiro de rua, Fábio.

     Acordou. O seu corpo parecia anestesiado.

     O ambiente no quarto do motel era quente e abafado, um ar seco e um pouco poeirento, reluzente por entre as faixas de claridade vindas do exterior através da janela semi-aberta. As decorações pobres e baratas tornavam o quarto esquecido e desabitado por décadas.

     Gonçalo levantou-se. O quarto de banho ao lado da divisão era pequeno e pouco higiénico. Enxaguou as mãos e lavou a cara. Voltou ao quarto e retirou o saco com o dinheiro debaixo do colchão. Levantou o seu casaco preto no ar, voltou-se para a luz e esta trespassou o tecido desgastado e rasgado.

     Desceu pelas escadas até ao balcão de entrada e entregou a sua chave. Pagou a estadia no mesmo acto. O senhorio, com cara de poucos amigos e desfigurada de um dos lados, guardou o dinheiro como um mendigo esconde o seu último pedaço de pão.

     Nas ruas, Gonçalo deparou-se comuma loja fora do centro das atenções. Entrou e logo observou a disposição dos corredores e das câmaras de vigilância. Escolheu um novo casaco, semelhante ao seu. Agarrou aleatoriamente num par de calças e de seguida roupa interior. Dirigiu-se imediatamente pelo balcão e saiu da loja sem dar nas vistas, mantendo um ar de naturalidade.

     - Gonçalo...? - chamou-o.

     Não queria acreditar na voz, surpreendeu-lhe a lembrança. Por isso, voltou-se sem hesitar.

     À sua frente, a imagem famíliar vestida de negro surpreendeu-lhe a vista.

     - Raphael! - respondeu-lhe Gonçalo com um sorriso nos lábios.
     - Sim. Como prometido, aqui estou eu.
     - Porque levou tanto tempo?! - perguntou num tom despercebido de revolta.

     Gonçalo abraçou-o sem receber uma resposta.

     - Gonçalo, porque roubaste esta roupa se tens dinheiro contigo?

     Gonçalo envergonhou-se de olhos postos no chão. O homem de negro colocou-lhe uma mão sobre o ombro e direcionou-o pela rua. Os dois começaram a caminhar.

     - Veio para me mostrar o que aconteceu realmente com a minha família? - perguntou Gonçalo, esperando uma resposta clara e directa.
     - Tudo a seu tempo, Gonçalo - disse Raphael misteriosamente.

     Gonçalo parou e Raphael deu mais dois passos, voltando-se depois para ele.

     - Contudo, preciso da tua ajuda.
     - Da minha ajuda? - perguntou Gonçalo, curioso e ao mesmo tempo impaciente.
     - Sim - pausou - há um rapaz muito especial com quem te deves encontrar com ele esta noite - disse, entregando para Gonçalo uma chave de um automóvel.
     - Como assim, especial? Como eu?
     - Sim. Mas... - e sorrindo - diferente. É ele quem te vai ajudar a descobrir. Eu sei que vai. E preciso que nos vás buscar.
     - Não estou a compreender.

     Os dois continuaram a falar e a caminhar pela rua até ao parque do centro.

     - Está ali ao fundo, à entrada deste parque. É um carro preto e tem uma mochila na bagageira que precisarás dela mais tarde. A morada e a hora está no porta-luvas.
     - Mas...
     - Tudo a seu tempo, Gonçalo. Preciso que confies em mim. Eu prometi-te e estou a cumprir. Com o tempo compreenderás.

     Raphael afastou-se.

     - Tanto como tu, eu também quero descobrir a verdade.

     Gonçalo permaneceu no parque, com as roupas nos seus braços, vendo o homem partir.

     Quando veio a si, apressou-se em direcção ao carro. Distraído, embateu com duas raparigas. As roupas caíram sobre o chão, assim como as chaves do automóvel.

     - Peço imensa desculpa - disse uma das raparigas.
     - Não... faz mal - balbuciou enquanto se organizava.

     Enquanto pegava nas suas roupas, a menina mais nova deu-lhe para a mão a chave.

     - Obrigado... - agradeceu. Olhando para a menina, Gonçalo petrificou. O ambiente do parque tornou-se silêncioso e sufocante. Agarrou as suas roupas num acto abrutalhado e correu sem explicação.

     Entrou no carro e atirou as suas roupas para os bancos de trás. Esfregou a cara com as duas mãos como se algo lhe estivesse a agarrar. Gonçalo estava a experienciar medo e, sobretudo, culpa... Após o ter feito com tanta força e sem se aperceber, uma linha de sangue escorria-lhe por um lado da cara. Tinha-se arranhado com as próprias mãos.

     "Não posso crer...", pensou para si, "Como pode isto acontecer...?"

     Gonçalo tremia das mãos. Nem nas chaves conseguia segurar. Reencostou-se no banco e tentou relaxar. "Como pude ter feito uma coisa daquelas e fugir..." O seu mundo estava a virar do avesso e a tornar-se cada vez mais pesado. Sentia a adrenalina correr-lhe pelo corpo, fazendo tremer ainda mais.

     Olhou pelo retrovisor e observou o seu reflexo nele. A ferida sarou-se em segundos, mas o sangue secou na sua cara. A sua expressão era de revolta.

O efeito do defeito - Mateus

Parte 6
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- Tarde 10 de Janeiro -


     A caminho do café, para se encontrar com a sua mãe, como combinado, Mateus parou em frente a uma livraria. Na montra, olhando, viu um livro que lhe chamou a atenção. Um livro que havia lido por último.

     Sorriu. Era um bom livro.

     Ao chegar ao café, acenou ao funcionário de mesa e sentou-se no exterior, na esplanada. Mateus confortou-se na cadeira sem reparar em nada ou ninguém. Inspirou pela boca como quem queria soltar um grito, mas conteu e expirou calmamente.

     A sua mãe ainda não havia chegado. Sozinho, relembrou e ouviu música como se revivesse um momento em lembranças.

     Vários minutos se passaram.

     - Como estás filho? - perguntou a mãe ao chegar perto dele.

     Mateus estava distraído. Célia sentou-se ao seu lado e tocou-lhe no braço.

     - Ah! Olá, mãe... Estou melhor... - respondeu modestamente.

     Célia tirou o seu casaco e pendurou-o sobre a cadeira do lado. Pousou a sua mala no chão ao lado dos seus pés e retirou os óculos. Observou e Mateus continuava distraído e dividido no espaço.

     - Conta-me o que se passou ontem no parque de estacionamento... - pediu gentilmente a mãe.

     Mateus não respondeu. Célia fechou os olhos.

     - Eu sei que ontem não deveria ter saído para um outro turno, mas eles precisavam muito de mim...
     - Eu sei, compreendo...
     - Mas agora estou aqui. E quero saber o que te está a acontecer desta vez.

     Mateus olhou-a de relance.

     - Como mãe, é claro... - afirmou Célia.
     - Não sei - respondeu Mateus - Tu mesma me disseste que seria muito improvável ele ter saído do hospital no estado de saúde em que estava. Mas já passaram cinco meses e o Gonçalo...
     - Eu já te tinha contado! - interrompeu ela - O Gonçalo foi transferido para fora do país, filho, para cuidados intensivos. E teremos que esperar que ele regresse... - Célia fechou os olhos novamente por um momento, pensando para si própria. Engoliu em seco e continuou - Eu sei o quanto tu queres vê-lo, mas não tem até agora permissão para ser visitado...
     - Não faz sentido!

     Célia não olhou Mateus nos olhos.

     - Eu sei que não. Mas são as normas lá, diferente das nossas normas cá.

     Mateus encolheu-se na sua cadeira.

     - Hoje mesmo ligarei para ser actualizada e saber mais pormenores sobre ele. Já passaram cinco meses sim. Creio que possa ter melhorado muito... - Novamente, Célia desviou o olhar do seu filho enquanto contava o que também parecia não ser credível para ela própria.

     - Porque teve ele que ir sem nos podermos despedir dele?
     - Na altura foi uma emergência. Já falamos sobre isto, melhor que eu tu lembras-te disso.

     Mateus recompôs-se.

     - Eu sei... É que aconteceu tudo de uma vez só!

     Entretanto, o funcionário de mesa aproximou-se.

     - Vão desejar algo?
     - Estamos a aguardar um pouco. Obrigado - sorriu Célia.
     - Com licença, então - respondeu o funcionário.

     Passaram dois minutos de silêncio.

     - Temos tanto para falar, Mateus.
     - Eu sei... - retribuiu ele.

     Célia corrigiu a posição da sua cadeira e aproximou-se de Mateus.

     - Como foi lidar com a rapariga real dos teus delírios?
     - Diferente... - respondeu. Pausou para pensar - Foi tão estranho, sabes... Não é a mesma rapariga com que imaginei quase este tempo todo. E eu tenho noção de que não é...
     - A rapariga da tua imaginação pode ter a mesma aparência que esta rapariga chamada Maria, mas a sua personalidade não é...
     - Nem a sua voz...
     - Exactamente. Tu conviveste com uma imaginação, uma criação tua. Nunca poderia ter as mesma qualidades e personalidade que a verdadeira.
     - Eu sei, mãe, e foi isso que me confundiu mais naquele momento. Ao ver a mesma pessoa, saber que uma era ficção e a outra real e no entanto, esperei tudo o que havia vivido com a primeira mas... não era ela.
     - É tão confuso, sim. É como conhecer algo novo que não esperavamos num amigo - finalizou Célia.

     Os dois olharam-se.

     Mateus repensou no que havia pensado nessa manhã. "Será que voltarei a ver a rapariga da minha imaginação?"...

     - Mateus... gostava que me contasses sobre o que falaste sobre o pai.
     - Não quero - respondeu levantando a voz e revirando os olhos.

     Célia deu por entender que não insistiria. Mateus apercebeu-se e acalmou-se. Pensou durante alguns segundos e arrependeu-se.

     - Uma altura, o pai contou-me um segredo...
     - Eu sei - respondeu Célia.
     - ... que ele tinha um "dom" parecido com o meu. E que uma maneira que ele tinha de o fazer parar ou abrandar era bebendo...
     - Filho... porque nunca me contaste?
     - Não sei... queria experimentar se resultava... Mas não resultou. Ele estava enganado e repara no que aconteceu, só piorou...

     Célia colocou uma mão sobre a sua boca.

     - Eu sei que errei. Agora sei...

     Mateus continuava a ouvir música dentro de si. Célia retirou a mão da sua cara e agarrou a mão do seu filho.

O efeito do defeito - Mateus

Parte 5
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- Manhã 10 de Janeiro -


     Por mais que uma situação podesse desmoronar o estado de espírito de Mateus, ele conseguia sempre adormecer, descansar e repôr as suas ideias em ordem pela manhã. Não que o conseguisse voluntariamente, apenas era capaz de o fazer com o apoio da sua capacidade. E, naturalmente, a sua mente poderosa necessitava de mais descanso que qualquer uma outra. "Dormir" implicava ser uma necessidade maior que qualquer uma outra, ou então, o dia seguinte seria complicado e doloroso.

     Mateus havia compreendido essa necessidade e os seus horários eram cumpridos como regras. Facilmente, para ele, que a memória era um utensílio muito mais prático que o comum.

     O sol estreitava por mais uma manhã.

     Mateus deixou-se ficar a descansar até mais tarde. A temperatura fresca do seu quarto e a luminosidade harmoniavam o ambiente. Deitado, começou a ouvir as suas músicas de memória.

     - Tenho fome - afirmou a si próprio.

     Levantou-se calmamente da sua cama e caminhou para a cozinha. Abriu o frigorífico e retirou o leite. Agarrou uma taça branca do armário e os cereais na porta do lado. Encheu a taça de cereais e enquanto os devorava, aos poucos, acrescentava um fio de leite. Sorriu sozinho.

     Admirou-se por ser capaz de aletrar o volume com que a música ecoava dentro da sua cabeça. Assim podia perfeitamente estar atento ao exterior sem interromper a sua melodia de que tanto gostava. Ser capaz daquela proeza fazia-o pensar que poderia superar qualquer problema na sua vida. A música acalmava-o e fazia-o sentir maior.

     Depois da refeição matinal, Mateus voltou para o seu quarto.

     Deitado, começou a pensar. A música parecia apoia-lo na sua concentração. Era a música da sua infância que ouvia com o seu pai. A mente de Mateus funcionava assim. Um pequeno detalhe desencadeava todas as memórias, as mais próximas e mais importantes.

     Mateus lembrou a primeira conversa com Maria na noite em que se encontraram.

     "Seria o facto de estar embriagado daquela maneira e a simples ideia de ela ter falado no seu pai que me fez entender que eu sentia falta do meu pai? Seria o delírio relacionado com ele? Então porquê a minha saudade por ele se mascarou em forma feminina, e porquê a Maria? Porquê o delírio habitual com ela? Porquê a minha cabeça ser tão complicada que nem eu próprio me consigo entender?", Mateus revirou-se na cama, "Porquê a minha mente me faz acreditar que ela é real quando apenas é uma ilusão criada por mim? Será um sinal do meu subconsciente? Como posso perder a noção disto quanto estou em delírio? Como me apaixonei por uma ilusão minha?"

     "São dez horas e cinquenta", pensou seguro e virando-se para o outro lado da cama, Mateus olhou para o relógio e confirmou. O telefone tocou de seguida.

     - Bom dia, mãe.
     - (Bom dia, filho. Liguei para saber se estava tudo bem.)
     - Sim, está. Vais trabalhar até mais tarde? Ontem voltaste para o Hospital e nem dormiste.
     - (Não, hoje vou sair para almoçar e terminar o meu turno. Logo à noite descansarei.)

     Houve um momento de silêncio.

     - (Não te esqueças datua medicação, está na hora.)
     - Sim, eu sei. Estou mesmo agora a pegar nela.
     - (Vem ter comigo, Mateus, ao café do costume para falar-mos. Depois do almoço, combinado?)
     - Claro, mãe.
     - (Tem cuidado. Um beijo. A mãe tem que ir.)
     - Um beijo, mãe.

     Mateus pousou o telefone. Segurou dois comprimidos e tomou-os.

     Ao engoli-los, pensou para si. "Alguma vez mais verei a rapariga? Poderei eu falar com ela consciente?", Mateus preparou-se. Tomou um banho calmo e vestiu-se. Almoçou o que restava do dia anterior, que estava guardado no frigorífico. A seguir, sentou-se em frente à televisão. Mas sem a ligar.

     "Passaram cinco meses e três dias e ainda não consegui perceber o que é esta ilusão.", pensou, "Como serei capaz de me controlar da próxima vez? E se isto continuar para sempre?"

     Mateus apercebeu-se de que ouvia uma outra música. Associando, relembrou o momento. Era uma música que havia ouvido com o seu amigo Gonçalo. Mais uma vez, várias memórias surgiram.

     Levantou-se e saiu de casa com brutidão. Uma música diferente, selvagem e alta, apedrejava os seus pensamentos para os poder controlar. Não conseguia afastar alguns deles. Um, em particular, que o fazia sentir. A recém saudade pelo amigo.

     No momento da frustração e da memória, Mateus correu em direcção ao único lugar onde menos queria ir. Apercebendo-se, deixou-se levar. Percebeu que não podia fugir, a sua mente por vezes tinha que lhe mostrar a verdade. Ao chegar ao cemitério caminhou calmamente.

     Aproximando-se, baixou a cabeça em respeito. Por vários minutos, permaneceu quieto e em silêncio. Em total silêncio. Retribuíndo o tempo em que jamais voltou a visitar a família de Gonçalo.

     Levantou a cabeça. Afastando-se o mais lentamente possível. Olhou com atenção.

     "Uma flôr branca", pensou, "Como ainda está viva depois de tanto tempo... Não, não é a mesma.", reflectiu, escapando um sorriso de tontice. Mas a ideia não era de desvalorizar. Claramente, a flôr simbolizava algo.

     Mateus regressou, pensando sobre o assunto com mais calma, para o encontro com sua mãe.

O efeito do defeito - Gaspar

Parte 6
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- Manhã 10 de Janeiro -

     - Ouvi dizer que hoje vamos almoçar batatas fritas! - informou o pequeno Jorge.
     - Batatas fritas? Há tanto tempo que não comia batatas fritas! - sorriu Duarte.
     - Podera! Aqui nunca cozinham nada disso...
     - Que terá feito o Gaspar para estar na directoria agora? - perguntou Samuel.

     Todos encolheram os ombros.

     - Que estavas a fazer perto da cantina? - perguntou a directora.

     Gaspar não respondeu. Tão pouco olhava nos olhos da directora. Apenas observava a pequena sala decorada aos anos 40.

     - Tens noção do perigo em que te colocaste ao tentar invadir um local inseguro? Gaspar?

     Gaspar levantou os olhos e respondeu em voz reprimida.

     - Não estava lá para entrar.
     - Então, o que te levou a sair da aula?
     - Apenas queria ver.

     A directora levantou-se. Arrumou a sua capa nas costas da cadeira e escreveu uma nota numa folha branca.

     - Podes regressar. Espero que estejamos esclarecidoseque não se volte a repetir.
     - Sim, senhora.
     - Vá. Leva este bilhete para o teu professor. Ele saberá o que fazer.

     Gaspar agarrou o papel e saiu do gabinete.

     Era hora de recreio e descanso. As crianças corriam de um lado para o outro. Risos e gargalhadas ecoavam pelos pátios da escola.

     - Que aconteceu, Gaspar? - perguntou Samuel.
     - Estou de castigo. Tenho que apresentar um trabalho até amanhã de manhã.
     - Porque foste à cantina?
     - Por nada. Pensei que podia encontrar alguma coisa - disse misteriosamente.
     - Alguma coisa? Achavas que ias encontrar o quê? Estiveram lá polícias e investigadores, o que quer que fosse que encontrasses não serviria de nada.

     Gaspar olhou para o vazio.

     - Tens razão. Que estupidez a minha.
     - Queres ajuda para o teu trabalho? - disponibilizou-se Samuel.
     - Não te preocupes , Sam, além do mais é o meu castigo.


- Tarde 10 de Janeiro -

     Gaspar almoçou sozinho na livraria da escola. Os livros e o cadernos estavam espalhados pela mesa. Ainda não tinha começado o trabalho de matemática que o professor lhe tinha imposto como castigo.

     A livraria estava deserta, à excepção da funcionária que tomava conta dele do balcão à entrada. Lá fora ouviam-se ainda as crianças no recreio.

     A campainha tocou. Em segundos toda a escola fez silêncio.

     Gaspar não conseguia concentrar-se. A todos os segundos lembrava a imagem da pobre rapariga desfigurada e queimada. Não lhe saía da cabeça. Nem a forma como ela não se tinha apercebido do acidente e da sua própria morte. Horas passaram.

     Gaspar levantou-se. Fingiu procurar um livro pelas prateleiras. Nesse momento lembrou o homem vestido de negro. "Quem seria ele?" - pensou. "Porquê dirigir-se apenas a mim? E como saberia ele o meu nome?" - Gaspar continuou a percorrer com a mão pelos livros mas sem lhes dar atenção. "De que segredo estaria ele a falar? Falou do meu segredo... E como saberia ele se eu nunca contei a ninguém?"

     - Gaspar?

     Ao ouvir o seu nome, despertou do seu pensamento. à entrada estava o professor.

     - Sim, professor.
     - Está quase na hora de voltar-mos para o orfanato.

     Desorganizadamente, arrumou os livros e o caderno na sua mochila. Gaspar continuou o seu pensamento a caminho do Orfanato. "Estaria ele a falar a sério sobre me vir buscar ao Orfanato?". A tarde estava a escurecer e Gaspar começava a sentir uma pequena ansiedade despertar.

     Ao chegarem ao Orfanato, Gaspar permaneceu só no seu quarto partilhado. Alguém bateu à porta.

     - Gaspar?
     - Sam...
     - Como correu o teu trabalho? - perguntou Samuel.
     - Nada de especial... - omitiu.

     Samuel deitou-se na sua cama e aconchegou-se.

     - Hoje estás um pouco estranho. Que se passa contigo?
     - Não sei. Deve ter sido do acidente de hoje...

     Samuel baixou os olhos em pensamento e, por fim, fechou-os.

     - Já vais dormir? - perguntou Gaspar ligando o computador.
     - Apenas fechar os olhos, estou cansado - sorriu.

     Gaspar olhou para o seu amigo. Esfregou uma vez os olhos. De seguida, esfregou novamente. Acalmou-se, sustendo a respiração, tentando perceber o que estava a acontecer.

     Samuel estava deitado na cama. Sobre ele pairava uma nuvem branca opaca e quase transparente. Ondulava ao ritmo de uma aragem suave apenas envolvida em torno do seu corpo. Gaspar olhava com admiração e interrogação.

     Apercebendo-se que Sam tinha adormecido rapidamente, Gaspar aproximou-se. Esticou a sua mão em direcção à nuvem. O seu gesto nada a afectou. Esfregou uma outra vez os olhos.

     Enquanto contemplava o seu amigo, a luz do seu quarto apagou-se, assim como o computador e o candeeiro. Gaspar espreitou pela janela e viu que toda a rua estava sem electricidade. Uma dor brusca e ácida soltou-se no seu peito.

     "Será ele?" - pensou.

Música ♫

Há uma música dentro de mim que ninguém consegue simplesmente ouvir.
Esta música, tento desesperadamente libertar sem nunca conseguir.
Procuro em mim os instrumentos que a compõem sem nunca os descobrir.

É uma música infinita paralela ao espaço que a cada segundo me dá um novo compasso. É um som de memórias e de novos momentos tocados em glórias por instrumentos lentos.

É engraçado como há pessoas transparentes e que a sua música paira como uma aura.
Mas é estranho ser-se uma pessoa que esconde a sua música numa jaula.
E outras, que apesar de terem músicas belas, não se conseguem libertar delas.

Quero apenas mostrar a minha música para todos. Quero fazê-lo simples e sem engodos.
Este, é o som da tranquilidade. Esta, é a fórmula humana para a cura. A mais simples criação da natureza diluída pelos sentidos. Esta, é a minha melodia pura.

Que perdura.

O efeito do defeito - Gaspar

Parte 5
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- Manhã 10 de Janeiro -


     A aula de matemática do primeiro turno estava a correr calmamente quando se deu uma explosão num edifício próximo. O alarme soou por todas as salas e corredores. Em segundos instalou-se o pânico.

     - De pé rapazes! Formem uma fila e deixem todos os vossos objectos na sala - alertou o professor enquanto caminhava para a porta - Vamos sair com calma e sem correr.

     Todos se levantaram e seguiram o professor.

     - Que terá acontecido? A sala estremeceu com o barulho! - perguntou o pequeno Jorge.
     - Parece ter vindo da cantina! - supôs o Duarte, convicto e assustado ao mesmo tempo.

     Pelo corredor, as outras turmas saíam em fila das suas salas e seguiam todos a mesma direcção. Por vezes ouviam-se alguns gritos de pânico entre as conversas stressantes sem fim.

     - Vamos todos em direcção ao pátio, pessoal, sem pressas nem empurrões - ordenou o professor de matemática.
     - O que aconteceu? - perguntou o Jorge incrédulo.

     O grande pátio em minutos se encheu de crianças de toda a instituição.

     - Ainda não sabemos ao certo. Esperem aqui - ordenou outra vez.

     Vários professores tentavam acalmar as crianças mais novas que choravam de medo. Dois funcionários traziam os ultimos rapazes que estavam a ter aula no ginásio, entre eles Gaspar e Samuel.

     - Sam! Gaspar! Estamos aqui! - gritou Jorge levantando os braços no ar.
     - Meu! Ouviste o estrondo?
     - Estavamos no ginásio ao pé da cantina quando sentimos a explusão! Estremeceu tudo! - explicou Samuel.
     - Eu disse que a explosão veio de lá! - afirmou Duarte.
     - Veio mesmo da cantina - concluíu Gaspar, olhando em sua volta para todas as crianças ocuparem o enorme pátio longe dos edifícios.
     - Que terá sido? - perguntou Jorge.
     - Fuga de gás, acho que é óbvio - respondeu um outro rapaz aproximando-se.
     - Raúl! Como estás? - cumprimentaram os rapazes.
     - É possivel, aquela cozinha estava a precisar de uns arranjos! - disse Jorge exaltado.

     Uma mulher com uma capa escura aproximou de todos carregando nas mãos um megafone. Era a directora da escola do orfanato. De seguida os professores pediram a todos os alunos para a ouvirem com atenção.

     - Bom dia crianças! - falou em voz alta e aumentada pelo aparelho - Um incidente ocorreu há pouco na cantina. Os bombeiros estão no seu caminho para aqui e tudo será resolvido. Felizmente ninguém estava na cantina no momento da explusão. Supomos que tenha sido uma fuga de gás que tenha causado a explosão. Peço a todos vocês que mantenham a calma e que permaneçam aqui até os bombeiros chegarem e resolverem o problema.

     Logo após, ouviram-se as sirenes e de imediato uma equipa de bombeiros correu com os seus equipamentos para o local.

     - Gaspar! - gritou Sam, apontando para o edifício da cantina.

     Um fumo negro elevava-se no céu vindo das janelas das cozinhas. O camião vermelho, entre várias manobras, aproximou-se do edifício e os bombeiros interviram em segundos com as mangueira de água.

     Passaram duas horas até o fumo ter desaparecido e a cantina ser livre de perigo. Poucos minutos a seguir a polícia chegou para investigar. Depois de uma longa explicação da directora, todas as crianças e professores retomaram as salas e continuaram com as aulas. Samuel, Gaspar, Duarte, Jorge e Raúl decidiram aproximarem-se da cantina para observarem de perto e matar a curiosidade.

     - Olha como está tudo queimado e destruído! - surpreendeu-se Jorge.
     - Olhem, são investigadores! - apontou Samuel.

     Gaspar sentiu-se nervoso e ansioso, não parava de olhar em sua volta.

     - O que estão aqui a fazer, rapazes? Não podem estar aqui! - perguntou o funcionário do ginásio.
     - Viemos só buscar as mochilas e os equipamentos de ginástica, senhor Gustávo - respondeu habilmente Samuel.
     - Rápido, então, e voltem para as aulas!

     Na sala de aula, as conversas eram repetitivas e acabavam todas no mesmo tema: a explusão na cantina. Muitos dos rapazes sentiam receio. Outros preocupavam-se com o almoço. Mas Gaspar parecia desligado do acontecimento.

     - Porque terá vindo aqui a polícia? - perguntou Duarte, virando-se para trás.
     - Não faço ideia... Meu, estás bem? - perguntou Samuel tocando no braço de Gaspar - pareces cansado ou enjoado.
     - Não sei, deve ter sido do susto - respondeu, escorregando um sorriso - Acho que preciso de apanhar ar.

     Com autorização do professor, Gaspar saiu da sala, sozinho.

     Ao entrar na casa de banho lavou a cara e sentou-se a pensar. Ao sair, espreitou pela porta. Não havendo ninguém nos corredores caminhou ligeiramente até sair do edifício. Deu a volta pela traseira para não ser visto e correu em direcção à cantina. Apenas o senhor Gustávo rondava o local. Nada que dificultasse a entrada na cantina, mesmo assim Gaspar estava atento e agia com cuidado.

     A dada altura, o senhor Gostavo afastou-se o suficiente para que Gaspar podesse atravessar o pátio e entrar pelas traseiras. Correu sem abrandar no momento certo até chegar à lateral oposta. Espreitou por uma janela com os vidros quebrados e aproximou-se...

     - "Hei! Quem és tu?" - gritou em dor uma voz vinda do interior dos destroços.

     Gaspar aterrorizou-se. Afastou-se da janela e sentou-se no chão.

     - "Tu vês-me?" - continuou - "Nenhum daqueles polícias me viu, mas tu sim! Eu vi como me olhaste nos olhos!"

     Gaspar paralizou de cabeça encostada na parede e olhos fechados durante segundos. No entanto, parou para pensar que não reconhecia a rapariga do orfanato. Respondeu naturalmente.

     - Sim...
     - "Tenho tanto medo!" - a voz estremecia e parecia chorar - "Não consigo ver o meu corpo!"

     Gaspar ouviu o choro agoniado da rapariga do outro lado da parede.

     - Quem és tu e o que te passou pela cabeça para teres estado na cantina? - perguntou.
     - "Não sei... Não sei!"

     Para Gaspar, o choro que ouvia parecia tornar-se mais físico que psicológico, como uma dor real.

     Num piscar de olhos, Gaspar apercebeu-se que estava sozinho.

     - Hei! Não podes estar aqui! - gritou o funcionário - Não devias estar nas aulas?

     Gaspar levantou-se mas não respondeu.

     - Rapaz, não podes estar aqui, foste avisado! Anda, tenho que te levar ao conselho.

     Gaspar esperava no banco de espera à porta do escritório da directora. Apenas pensava na rapariga desconhecida e no que havia acontecido que nem tinha reflectido no que estaria ele ali à espera. Entretanto uma secretária trazia uma mensagem.

     - Gaspar? - perguntou a mulher.
     - Sim?
     - Está lá embaixo uma pessoa que precisa falar contigo. Eu aviso a directora.

     Gaspar desceu até ao portão de saída, controlado por um funcionário guarda. Do outro lado do portão esperava um homem alto e moreno. Vestido completamente de negro.

     - Olá Gaspar - cumprimentou gentilmente.
     - Como sabe o meu nome?
     - Isso não importa agora. O que importa é que eu sei que tu queres sair daqui.

     Gaspar olhou-o com mais atenção, mas desconfiando mais ainda.

     - Eu sei que tens um segredo e quero ajudar-te. Não tens que me responder. Apenas ouve-me.
     - Quem é o senhor? - perguntou indignado numa voz grossa para a sua idade.
     - Um amigo. Um amigo que já ajudou alguém a sair do mesmo orfanato que o teu.

     Gaspar negou com a cabeça sem desviar o olhar.

     - Gaspar, esta noite, a energia eléctrica do orfanato para o qual regressam todos os dias será desligada. Será tua a decisão de ficares ou fugires. Aquilo que sempre quiseste mas nunca conseguiste sozinho.
     - Como sabe isso tudo? Nem o conheço!
     - Conhecerás. E muitos outros como tu - afastando-se do portão, desviou o olhar para o guarda - O meu nome é Raphael. Ficarei à tua espera.

     Gaspar permaneceu no portão, vendo o homem misterioso partindo.
 

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