Rafael Braga

Outra luz amanhece

Outra luz amanhece. Pintada entre quadros unidos e nascimentos astrais.
Ergue-se sadia totalmente amarelada, estrelar, acesa.
Manifesta-se infinita num humilde aventureiro.
Fantasia-lhe o remoto mar amplo. Deveras expandido, ternuramente enfeitiçado.
Maravilhoso, odor salgado, temperado, ruge às rochas que, ulceradas, estas afundam inevitavelmente navios de amadores. Lamento utópico trazido ocidentalmente. Patronal orgulho recusado.
Eleva sua temida espada. Brilhante lâminada, ouro gelado.

Em satíricos tempos originara ultimatos, atrocidades, feridas abertas zanzadas em lamúrios oportunos.
Sua obra bárbara revoltara e transformara um deus obcecadamente. Premíscuo, ardente, rancoroso, antropoteísta. Transformara-o insaciável. Perigoso, atraz, raivoso, aumentado. Tornara-o enorme.
Manuseando o seu toque rasgou a raiva. Quebraram-se-lhe unhas e saudades eternas.
Carismado, o nato soldado içara gloriosamente o suberbo úmero, prontificado em reconciliação, armado refece. Ignificara sobreventosamente tamanha orgia. Tempestade ultrajante. Tempos amanharados, maliciosos, bulcões elevaram-se monstruosamente.

Deuses enlouquecidos. Uma manhã adormecida.
Moldariam as nações, enriqueceriam ignorantes, rafeiros, anarquistas.
Observaram unânimes, divinos entristecidos.
Objectaram unidos tanta raiva anormal.
A receosidade roera a natureza, jazia a redenção em igualdade.
Fermentariam outra renascente maravilhosa aliança?
Dúvidosos esperançaram, temerosos esperaram.
A bondade regenerou-se, a caravela atracada rangeu.
Navegante, escondeu sua temida espada. Bainhou lentamente o gesto.

Da encosta, sentada, cintilava uma luz, pálida amarelada.
Ela usava aquela decorada orla, ria o tempo eterno.
Amanheceu bela, recordada, agradecida, confiante, optimista.

O efeito do defeito - Gabriela

Parte 7
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- Tarde 10 de Janeiro -

     - Não posso acreditar... - disse Gabriela em voz baixa e desacreditada - Estou a ouvir música!

     Soraia, como sua amiga há alguns anos, sabia que Gabriela era incapaz de ouvir além dos pensamentos transmitidos em voz pelas pessoas, nunca músicas ou sons externos.

     - "Tens mesmo a certeza?" - pensou para Gabriela.
     - Sim!
     - "Não.. ouço música nenhuma..." - pensou Soraia apenas para si concentrando-se no interior do café.

     Gabriela então compreendeu. Não estava a ouvir música de aparelho algum como desejava, não estava a ouvir pelos seus próprios ouvidos... Sentiu-se decepcionada. Continuava a ouvir a música

     - Quero sair daqui - disse Gabriela
     - "Então... e o lanche...?"
     - Não quero...

     Ambas levantaram-se e sairam do interior do café. Nem pararam para se despedirem de Vasco. Enquanto passavam pelo recinto da esplanada, Soraia voltou sem explicação ao café.

     Gabriela parou. A música era mais nítida. Olhou em seu redor. Nada fazia sentido.

     "Não faz sentido. De onde virá? De alguma pessoa?", pensou Gabriela, que continuava a concentrar-se na fonte da música. Até certa altura, de entre a melodia, uma voz falou calmamente.

     - "Uma altura, o pai contou-me um segredo..."

     Gabriela detectou, instintivamente, o rapaz que se encontrava na esplanada a alguns metros de si. A sua voz era clara e fluente, sem interrupções de vários pensamentos simultâneos, ao contrário de todas as outras pessoas. Olhou o rapaz e continuou a "escutar".

     - ...contou-me um segredo, que ele tinha um dom parecido com o meu. E que uma maneira que ele tinha de o fazer parar ou abrandar era bebendo..."

     Soraia regressou do café e aproximou-se. Tocou no seu braço em sinal de prontidão.

     - "Esqueci-me... do telemóvel... vamos?" - disse Soraia.

     Gabriela permanecia concentrada.

     - "Ainda ouves... a música?" - pensou olhando para ela.
     - Melhor que isso. Sei agora de onde ela vem - respondeu aproximando-se do rapaz acompanhado.
     - "Onde vais?" - perguntou a amiga.

     Gabriela parou por instantes na direcção dele. Algumas vozes da mulher que o acompanhava não eram tão distintas, sobretudo, porque a voz do rapaz era também mais apelativa.

     - "Sim, lembro. Primeiro foi a aprendizagem demasiado rápida para a minha idade devido à memória fotográfica. As alucinações mais tarde. E agora isto da reprodução mental..."

     Gabriela arregalou os olhos. A mulher que acompanhava o rapaz pressentiu a sua presença e voltou-se para ela. Agindo naturalmente, desviou o olhar deles e voltou para trás para perto de Soraia.

     - "Que te deu?" - perguntou.
     - Não vais acreditar...
     - "Em quê?"
     - Era aquele rapaz...
     - "Que tinha... ele?... é giro..." - disse Soraia espreitando pelo ombro da amiga.
     - A música, Soraia, vem dele.
     - "Como assim?... Da cabeça dele... também?"
     - Sim!

     Gabriela e Soraia afastaram-se da esplanada. Seguiram pela praça até ao outro lado da rua que os separava e permaneceram ali, podendo ainda observar o rapaz de longe.

     - "Porque... não foste falar... com ele?"
     - Está acompanhado pela mãe que é médica.
     - "Mãe? ...como sabes?... esquece... Eu teria... falado com ele..."

     Gabriela revirou os olhos.

     - "Porque... será... ou como ele faz... isso?"
     - Não sei...

     Gabriela não pensou em possibilidades. Apenas um pensamento sobressaía no assunto: alguém mais também possuía algo em comum como ela. Diferente mas comum. Por isso, só haveria uma coisa a fazer.

     - Tenho que o conhecer para falar com ele.
     - "Gostaste dele..." - pensou Soraia, sorrindo.

     Gabriela sentiu o mesmo. Fascinou-a.

O efeito do defeito - Maria

Parte 7
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- Tarde 10 de Janeiro -


     - E o que a mãe iria pensar de ti, Carolina? - perguntou Maria tocando a irmã.

     Carolina fez uma pausa com os olhos postos na almofada.

     - Eu sei que ainda não entendes, mas um dia irás, que existem pessoas que por vezes não compreendem as situações diferentes pelas quais não estão a passar.

     Maria lembrou Mateus. Da misteriosidade dele em particular.

     Carolina abraçou-se à sua irmã.

     - Percebes? Não podes mostrar às pessoas que és mais forte que elas. Porque elas não o são e por isso vão te fazer sentir diferente. Muitas delas troçam e só querem o mal da inveja. Eu sei que a mãe não é assim, mas, mais cedo ou mais tarde tu irias contar a todos os amigos da escola e foi melhor assim.
     - Então para que tive tanta força de manhã? - perguntou a pequena, triste.

     Maria encolheu os ombros e expressou-se com uma interrogação. "Porque haveria de ter tido a mesma força que eu de manhã e agora não?" - questionou-se - "E de onde viria? E de onde vem a minha? Como é possível? Devo experimentar se ainda... e também tenho força?".

     - Sim? - perguntou Carolina.

     Maria tinha-se distraído com os seus pensamentos.

     - Não percebi, mana.
     - Quero sair e passear - repetiu Carolina.

     Maria pensou e sorriu.

     - Vamos então até ao parque. Combinado?

     Carolina levantou-se da cama e puxou pela mão da irmã. Ambas desceram as escadas até à sala de estar. Sentado, Bernardo lia o jornal descontraído, de perna cruzada e casaco pendurado nas costas do sofá. Preocupada, a mãe apareceu vinda da cozinha.

     - Que passou, filha? - perguntou a mãe.
     - Nada, mãe. Ela só quer ir passear um pouco - disse Maria.
     - Querem que o Bernardo vos leve?

     Sem hesitação alguma, Carolina apertou a mão de Maria.

     - Não é necessário, mãe - respondeu Maria.

     Sairam de casa e seguiram a pé até ao centro da cidade. Pelo caminho conversaram.

     - Porque é que o pai não está mais connosco? - perguntou Carolina.

     Maria tentou ignorar ao princípio.

     - Teve que ir embora... - respondeu.
     - Sim, mas porquê?
     - Porque a mãe já não gostava dele e tinham muitos problemas juntos.

     Maria desviou o olhar. Carolina continuou a olhar em frente a pensar. A rua inclinava numa subida íngreme. No final, havia um cruzamento. Viraram à esquerda e desceram para o centro. O parque estava perto.

     - Eu gostava mais do pai - disse a pequena.

     "Eu também.", pensou Maria - "Mas ele tinha mudado tanto..."

     - Achas que o voltaremos a ver? - perguntou Carolina.
     - Um dia, talvez - respondeu Maria encolhendo os ombros.
     - Ainda gosta de nós?

     Maria voltou-se para a irmã e sorriu.

     - Sim, ainda gosta de nós. É o nosso pai.
     - É que eu não gosto do Bernardo, faz-me ter medo.
     - A mim também. É duro, mas não é má pessoa.
     - Porque é que a mãe o levou para casa? - perguntou a pequena.
     - Foi a decisão dela. Não queria tomar conta de nós sozinha.
     - Podia ter encontrado alguém mais simpático...

     Maria sorriu. O parque ficava ao fundo da avenida e bastava-lhes atravessar a rua. Nesse momento um automóvel preto estacionou à frente de ambas, assustando-as.

     - Mais cuidado! - gritou Maria.

     O condutor saíu do carro calmamente. Olhou-as e inclinou-se.

     - Peço imensa desculpa por vos ter assustado, não era a minha intenção - disse gentilmente.

     Carolina observou com atenção o homem alto e vestido de negro e sorriu para ele. Em resposta, o homem acenou-lhe com a mão.

     - Dá-me a mão. Vamos - pediu Maria, entrando pelo parque.
     - Acho que conheço aquele senhor... - disse Carolina olhando ainda para trás.
     - Sim? De onde?
     - Do Hospital - disse sorrindo.

     Continuaram a passear pelo parque. Lancharam juntas num café e sentaram-se nos bancos do jardim a comer gelados. O dia estava calmo e suave.

     - Tiveste muito medo no Hospital? - perguntou Maria.
     - Não. A enfermeira era simpática e estava sempre comigo - riu.

     Maria observou-a. Pensou para si própria como a sua irmã crescia. E como o tempo passava.

     - Ela disse que eu fui atropelada por um carro, mas eu não lembro.
     - É normal - confortou Maria acariciando o rosto da irmã.
     - Ela também disse que sou muito forte - pausou e continuou - Será que ela sabia?
     - Ela não se estava a referir a essa força, mas sim à da vontade. Quis dizer que és forte por dentro - Maria piscou o olho.
     - Tu também és muito forte, mana - disse a pequena.

     Ambas terminaram o gelado e levantaram-se dos bancos. De volta, pelo mesmo caminho, Maria distraíu-se enquanto que um rapaz cheio de roupa e de pressa embateu sem querer nelas. As roupas espalharam-se pelo chão. Umas chaves de automóvel caíram sobre os pés de Carolina.

     - Peço imensa desculpa - disse Maria.
     - Não... faz mal - balbuciou ele.

     Carolina agachou-se e apanhou as chaves. Aproximou-se do rapaz e entregou-lhe-as. Maria sorriu para sua irmã e olhou para o rapaz.

     - Obrigado... - agradeceu ele.

     Sem explicação alguma, o rapaz agarrou as suas roupas violentamente e desapareceu a correr pelo caminho em segundos.

     "Que estranho.", pensou Maria.

     - O que tinha ele, mana? - perguntou Carolina.
     - Pressa, muita pressa - disse - Vamos para casa.

O efeito do defeito - Gonçalo

Parte 6
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- Tarde 10 Janeiro -

     Gonçalo ligou o motor do carro e arrancou. Seguiu a estrada até uma rua menos trafegada. Ali, parou o carro e desligou-o. Os prédios altos de cada lado daquela rua estreita sombreavam o carro como se fosse o início da noite adiantada. Trocou as suas roupas velhas e vestiu as novas que havia roubado na loja há alguns minutos atrás.

     Enquanto se vestia pensava na menina. Não queria acreditar, a menina com que havia embatido despropositadamente no parque era a mesma menina que havia atropelado há cinco meses atrás, na noite a seguir que havia fugido do Hospital.

     O seu lado sensível sentia-se aliviado pela menina se encontrar bem de saúde e por nada de pior lhe ter acontecido depois do acidente. Enquanto que o outro lado, o lado de culpa, fazia-o repugnar a si mesmo pelo sucedido. Nunca se iria perdoar pelo que havia feito naquela noite remota.

     Olhou-se ao espelho e com a manga da camisola suja, limpou o sangue da cara. Olhou o vazio e esperou. Saiu do carro e abriu a bagageira da traseira. Havia uma mochila como Raphael lhe havia dito. Dentro da mochila havia uma tesoura de arame e uma lanterna, nada mais. Fechou a mala e voltou para o interior. Abriu o porta-luvas e agarrou um pequeno mapa com uma nota escrita: a morada onde deveria se encontrar nessa noite.

     Gonçalo ligou o carro.

     "Preciso de procurar agora a morada para chegar a horas.", reflectiu. A morada na nota não ficava muito longe de onde estava. Seguiu caminho para lá.

     Parado num semáforo, o rádio tocava uma música. Gonçalo olhava para todos os lados, em particular, por receio. Nesse mesmo momento, os sinais dos peões piscavam e uma mulher atravessou-se em frente nos últimos segundos. Gonçalo reconheceu-a.

     "A mãe do Mateus...", uma súbita adrenalina picou-lhe o peito.

     Célia, que saía do seu turno do Hospital, passou a correr na passadeira olhando de seguida para trás para o carro e reconhecendo-o por breves instantes.

     Gonçalo apercebeu-se que a mãe do seu amigo o havia avistado e aproximava-se do carro. Sem hesitação acelerou... Enquanto fugia, o medo apoderava-se dele, desabilitando-lhe os pensamentos e as decisões.

     Minutos depois, Gonçalo desligou o carro ao chegar à morada descrita. Olhou em seu redor. Haviam algumas casas, uns quantos cafés até ao fundo da rua comprida e um orfanato. Estava a entardecer. Voltou a entrar no carro e estacionou-o legalmente perto do orfanato. Faltavam algumas horas até à hora prevista, por isso permaneceu no carro, para descansar um pouco e pensar.

     Muitos medos passavam pela sua cabeça. Ter visto a mãe de Mateus ainda lhe trouxe mais tormento. "Como haverei de me encontrar com o Mateus?", interrogou-se, "Como lhe vou contar tudo o que aconteceu? Como reagirá ele?"... Gonçalo se encostou no banco.

     ...

     Algumas horas haviam passado. Nas suas linhas de ideias e pensamentos misturadas com a música do rádio, Gonçalo quase adormecera, se não fosse por lhe terem batido na janela do carro.

     A noite já se tinha envolvido e as luzes da rua estavam todas ligadas. Gonçalo ficou surpreso, Fábio esperava-o fora do carro. Os dois abraçaram-se.

     - Que estás aqui a fazer? - perguntou Gonçalo, sentido de felicidade.
     - Vim ter contigo, meu! Estava com saudades tuas!
     - Mas, como me encontraste?
     - Uma pessoa que sabe encontrar pessoas veio ter comigo e indicou-me o caminho - respondeu Fábio.

     "Raphael", pensou Gonçalo.

     - E o MD e os rufias do Porto? Como te livraste deles? - perguntou Gonçalo preocupado.
     - Oh, meu, tiveram a sua sorte na mesma noite em que vieste para cá.
     - Como assim? - Gonçalo ficou curioso.
     - Foram todos apanhados! Não sei como ou porquê, mas foram. Alguém os chibou e prepararam-lhe uma armadilha - Fábio riu, batendo com o punho no ombro de Gonçalo.
     - Há duas noites atrás?
     - Sim - respondeu o amigo.
     - Nem vais acreditar! Na noite em que vim para Braga, fui cercado por eles! - contou Gonçalo - Devias ter visto a cara deles quando me viram ainda vivo! Mas acho que não me ia safar daquela. Foi então que ouvimos um tiro que chamou a atenção da bófia. E todos fugiram.

     Fábio esboçou um sorriso de convencido e lembrou-lhe.

     - Lembras-te aquela arma que encontramos e que só tinha uma bala?
     - Nããão! - admirou-se Gonçalo - Foste tu quem disparou?
     - Tive que te seguir para saber se chegavas bem. Que seria de ti sem mim, meu?

     Os dois riram e cumprimentaram-se. Continuaram a conversar por breves minutos.

     - Conta-me, o que te pediu ele?
     - O Raphael? Que me encontrasse contigo, nada mais.
     - Esta rua não parece ter nada de especial.

     Ao fundo da rua, um homem aproximava-se.

     - Raphael? - questionou Gonçalo - Estamos aqui. E agora?
     - Olá rapazes.

     Raphael, sempre misterioso, abriu a mala do carro. Agarrou a mochila e colocou-a sobre o ombro.

     - Vamos apagar umas luzes.

O efeito do defeito - Maria

Parte 5
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- Manhã 10 de Janeiro -

     - Bom dia, mana - cumprimentou Carolina ao seu lado - Queres ver uma coisa?

     Maria, resistindo ao sono, olhou-a com curiosidade. Carolina contornou a cama até ao fundo dos pés. Agarrou com as duas mãos por debaixo e elevou a cama a cinquenta centímetros do chão durante alguns segundos. Maria segurou-se surpresa.

     - Como fizeste isso? - perguntou perplexa, levantando-se da cama e segurando os braços da pequena.
     - Não sei. Mas sou forte agora - disse alegre.

     Maria não queria a acreditar no que acabara de assistir. Diversas perguntas passaram-lhe pela cabeça, algumas ainda mais confusas que as anteriores. A preocupação foi a primeira a manifestar-se.

     - Não contes nada aos pais. Prometido?
     - Porquê? - perguntou Carolina contente e desejada de o fazer a toda a gente, como uma nova brincadeira.
     - Vou contar-te um segredo. Eu também tenho muita força como tu. Por isso não podemos contar nada a ninguém. Prometes?

     Carolina baixou os olhos de alguma decepção. Maria abraçou-a, preocupada.

     - Prometes? - perguntou, sorrindo.
     - Sim - prometeu, pensando na sua irmã - Mas porque não podemos contar nem ao pais?

     Maria levantou-se. Sabia que "empatar" não seria uma solução infinita mas teria que servir até encontrar respostas às suas próprias perguntas.

     - Porque eles ainda andam zangados um com o outro - disse - e se souberem disto, vão ficar muito mais preocupados e com medo que alguma coisa possa acontecer.
     - Porque eu posso me magoar, não é?
     - Exacto, entendes? - sorriu de alívio.

     Carolina baixou os olhos.

     - A culpa foi minha... - murmurou.
     - Oh meu anjo... Porquê? - perguntou Maria, sentindo pena pela expressão da sua irmã.
     - Se eu não tivesse fugido de casa, eles não tinham discutido ainda mais. E não me tinha acontecido nada...

     Maria ajoelhou-se novamente frente à sua irmã.

     - Não tiveste culpa. Eu mesma tinha fugido. E o acidente não foi culpa tua também.
     - Tenho medo dele...

     Maria abraçou-a.

     - Não digas isso. Vai tudo correr bem. A mãe veio te dar um beijo de "boa noite" quando adormeceste ontem. Ela gosta muito de ti. E sei que ele também.
     - Então porque discutem por minha causa?
     - Porque são adultos, Carolina - Maria sorriu e Carolina achou um pouco de graça - Mas eles adoram-te e querem tudo de bom para ti, mesmo que não pareça assim. Quando cresceres irás perceber melhor.

     Carolina esboçou um sorriso de anjo, com o seu cabelo longo e loiro a brilhar como uma aura. Esticou os braços a pedir um abraço e Maria agarrou-a novamente.

     - Tanta forçaaa! Ai! - gritou alegre, mas séria quanto à força.

     Carolina riu e correu pela casa.

     Preparam e tomaram o pequeno-almoço juntas. De seguida tomaram duche e vestiram-se. O dia estava brilhante e alegre. Aproveitanto um momento sozinha,Carolina dirigiu-se à sala e agarrou o sofá, levantou-o de um lado o suficiente para se pôr debaixo dele, pousando-o novamente. Enquanto isso, Maria, lembrou o mais absurdo. Há cinco meses atrás, ela mesma havia revirado um automóvel. Não fazia a mínima ideia de como o tinha feito. Mas aconteceu e apartir desse dia nunca mais voltou a experimentar a mesma força e desespero. Maria só tinha que esperar que nada de mal acontecesse com a sua irmã Carolina.

     "Que posso eu fazer?", pensou. Quem poderia ajudar duas raparigas que não sabiam o que tinham e o que tinham era fora do comum e, quem sabe, muito perigoso. Maria continuava a pensar...

     Pela janela, Carolina viu os pais chegarem de carro pela rua.

     - Mana, chegaram!
     - Vamos esperar por eles na porta, rápido.

     As duas correram e riram até à porta da entrada.

     - Bom dia! - gritou Carolina correndo pelo jardim de flores brancas.

     A mãe abraçou-a de entusiamo a fugir-lhe pela garganta enquanto chamava por ela, a cumprimentava e lhe dava as boas vindas a casa. Pediu mil desculpas por não a poder ter ido buscar ao Hospital. A alguns metros de distância, o padastro da menina permaneceu sereno e imóvel, vestido de fato cinzento e sapatos clássicos mas velhos, assistindo sem qualquer sinal de emoção no seu rosto enrugado.

     Maria observou-o de canto e apercebeu-se. Não era algo fora do vulgar. Ele fora sempre muito reservado e misterioso. Aproximou-se da mãe e da Carolina. Todas entraram na casa e sentaram-se a conversar, excepto o padastro, que permaneceu na rua a fumar. Maria repetiu os conselhos do médico para a mãe.

     - O médico explicou que a fisioterapia estava terminada, a Carolina estava cem por cento recuperada. Não receitou nada. Apenas que deveria praticar algum desporto ou exercícios...

     Carolina ouvia com atenção, mas algo novo e imenso nos seus olhos queria soltar-se e mostrar-se pelos cantos da casa. Uma ideia nova ou um pensamento. Um segredo. Segurava a mão da sua mãe. Chamava constantemente por ela quando não lhe dirigia a atenção, por falar com Maria sobre as condições que o médico havia proposto para a recuperação final de Carolina. Maria estava a aperceber-se o quanto Carolina se estava a entusiasmar com a presença da mãe.

     - Mãe, mãe! - chamava Carolina.
     - Sim, Carolina, o que se passa?
     - Quero mostrar-te uma coisa nova - informou cantarolando.

     Maria lançou um olhar sério a Carolina, mas esta não lhe retribuiu um olhar.

     - Ai sim? E o que é? - perguntou a mãe, seguindo a brincadeira.

     Em voz baixa falou.

     - Mas o Bernardo, o pai, não pode saber, prometes?

     Maria levantou-se de imediato.

     - Carolina, não!
     - Hoje levantei a cama da mana no ar, sozinha - concluíu, ignorando Maria.
     - Que parvoíce, filha - riu a mãe.
     - Então eu mostro - apressada, a menina correu em volta e agarrou-se ao mesmo sofá.

     Maria assistiu sem reacção. Carolina esforçou-se mas o sofá nem sem moveu um centímetro.

     - Filha, não faças isso - falou a mãe.

     O rosto de Carolina entristeceu de confusão. Não compreendia como não conseguia repetir a mesma proeza. Enquanto isso, Maria também estava confusa. Mas de certa forma, aliviada pela mãe ter entendido como uma brincadeira.

     Carolina tentou uma segunda vez. De novo, o sofá pesava-lhe toneladas. Birrou e fugiu para o seu quarto. Maria seguiu-a.

     - Já não sou forte... Queria que a mãe visse... - soluçou a pequena.

     Maria deitou-se do seu lado. Não percebia o que havia acontecido. Era inexplicável. Entre tantas questões, Maria decidiu experimentar se ainda conseguia ter a mesma força que nunca mais usou.

Longe de casa

Era noite e a lua já tinha mergulhado no horizonte.
O orvalho caía tão suavemente que pairava sobre a areia húmida.
Havia uma única luz ao nosso lado, o resto era escuridão.
A água salgada rugia lá do fundo.
Contei estrelas. Procurei nelas desenhos. Apontei. Rimos.
Estavamos no meio do nada mas senti que havia tudo à nossa volta.

O efeito do defeito - Gonçalo

Parte 5
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- Tarde 10 de Janeiro -

     Meio dia havia passado. Gonçalo adormecera depois da noite em branco. As últimas noites não estavam a ser agradáveis e dormir o necessário tornava-se um castigo. Gonçalo sentia a falta das noites em branco na companhia do seu companheiro de rua, Fábio.

     Acordou. O seu corpo parecia anestesiado.

     O ambiente no quarto do motel era quente e abafado, um ar seco e um pouco poeirento, reluzente por entre as faixas de claridade vindas do exterior através da janela semi-aberta. As decorações pobres e baratas tornavam o quarto esquecido e desabitado por décadas.

     Gonçalo levantou-se. O quarto de banho ao lado da divisão era pequeno e pouco higiénico. Enxaguou as mãos e lavou a cara. Voltou ao quarto e retirou o saco com o dinheiro debaixo do colchão. Levantou o seu casaco preto no ar, voltou-se para a luz e esta trespassou o tecido desgastado e rasgado.

     Desceu pelas escadas até ao balcão de entrada e entregou a sua chave. Pagou a estadia no mesmo acto. O senhorio, com cara de poucos amigos e desfigurada de um dos lados, guardou o dinheiro como um mendigo esconde o seu último pedaço de pão.

     Nas ruas, Gonçalo deparou-se comuma loja fora do centro das atenções. Entrou e logo observou a disposição dos corredores e das câmaras de vigilância. Escolheu um novo casaco, semelhante ao seu. Agarrou aleatoriamente num par de calças e de seguida roupa interior. Dirigiu-se imediatamente pelo balcão e saiu da loja sem dar nas vistas, mantendo um ar de naturalidade.

     - Gonçalo...? - chamou-o.

     Não queria acreditar na voz, surpreendeu-lhe a lembrança. Por isso, voltou-se sem hesitar.

     À sua frente, a imagem famíliar vestida de negro surpreendeu-lhe a vista.

     - Raphael! - respondeu-lhe Gonçalo com um sorriso nos lábios.
     - Sim. Como prometido, aqui estou eu.
     - Porque levou tanto tempo?! - perguntou num tom despercebido de revolta.

     Gonçalo abraçou-o sem receber uma resposta.

     - Gonçalo, porque roubaste esta roupa se tens dinheiro contigo?

     Gonçalo envergonhou-se de olhos postos no chão. O homem de negro colocou-lhe uma mão sobre o ombro e direcionou-o pela rua. Os dois começaram a caminhar.

     - Veio para me mostrar o que aconteceu realmente com a minha família? - perguntou Gonçalo, esperando uma resposta clara e directa.
     - Tudo a seu tempo, Gonçalo - disse Raphael misteriosamente.

     Gonçalo parou e Raphael deu mais dois passos, voltando-se depois para ele.

     - Contudo, preciso da tua ajuda.
     - Da minha ajuda? - perguntou Gonçalo, curioso e ao mesmo tempo impaciente.
     - Sim - pausou - há um rapaz muito especial com quem te deves encontrar com ele esta noite - disse, entregando para Gonçalo uma chave de um automóvel.
     - Como assim, especial? Como eu?
     - Sim. Mas... - e sorrindo - diferente. É ele quem te vai ajudar a descobrir. Eu sei que vai. E preciso que nos vás buscar.
     - Não estou a compreender.

     Os dois continuaram a falar e a caminhar pela rua até ao parque do centro.

     - Está ali ao fundo, à entrada deste parque. É um carro preto e tem uma mochila na bagageira que precisarás dela mais tarde. A morada e a hora está no porta-luvas.
     - Mas...
     - Tudo a seu tempo, Gonçalo. Preciso que confies em mim. Eu prometi-te e estou a cumprir. Com o tempo compreenderás.

     Raphael afastou-se.

     - Tanto como tu, eu também quero descobrir a verdade.

     Gonçalo permaneceu no parque, com as roupas nos seus braços, vendo o homem partir.

     Quando veio a si, apressou-se em direcção ao carro. Distraído, embateu com duas raparigas. As roupas caíram sobre o chão, assim como as chaves do automóvel.

     - Peço imensa desculpa - disse uma das raparigas.
     - Não... faz mal - balbuciou enquanto se organizava.

     Enquanto pegava nas suas roupas, a menina mais nova deu-lhe para a mão a chave.

     - Obrigado... - agradeceu. Olhando para a menina, Gonçalo petrificou. O ambiente do parque tornou-se silêncioso e sufocante. Agarrou as suas roupas num acto abrutalhado e correu sem explicação.

     Entrou no carro e atirou as suas roupas para os bancos de trás. Esfregou a cara com as duas mãos como se algo lhe estivesse a agarrar. Gonçalo estava a experienciar medo e, sobretudo, culpa... Após o ter feito com tanta força e sem se aperceber, uma linha de sangue escorria-lhe por um lado da cara. Tinha-se arranhado com as próprias mãos.

     "Não posso crer...", pensou para si, "Como pode isto acontecer...?"

     Gonçalo tremia das mãos. Nem nas chaves conseguia segurar. Reencostou-se no banco e tentou relaxar. "Como pude ter feito uma coisa daquelas e fugir..." O seu mundo estava a virar do avesso e a tornar-se cada vez mais pesado. Sentia a adrenalina correr-lhe pelo corpo, fazendo tremer ainda mais.

     Olhou pelo retrovisor e observou o seu reflexo nele. A ferida sarou-se em segundos, mas o sangue secou na sua cara. A sua expressão era de revolta.
 

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